sábado, 14 de setembro de 2013

Morreu Luiz Gushiken

     Conheci Luiz Gushiken em São Paulo. Ele era colega de meu irmão, Gilmar Carneiro, na Fundação Getúlio Vargas, e também no movimento sindical dos bancários.  Eu e Gilmar tínhamos entrado pelo mesmo concurso no Banco do Estado da Guanabara, o antigo BEG, que depois virou BERJ e depois Banerj.  Gushiken trabalhava no Banespa. Eles se juntaram num movimento para acabar com o sindicato pelego, que dominava o sindicato dos bancários. Frequentemente se reuníam lá em casa.  Era legal. Dinho, o japonezinho que morava na nossa república, tocava cavaquinho num triozinho elétrico do sindicato, para mobilizar os bancários pelo centro de São Paulo. Aí eles ganharam a diretoria do sindicato e tiraram a obrigatoriedade da contribuição sindical. E era o sindicato mais rico do Brasil. O Sindicato dos Bancários de São Paulo. Gilmar, ao contrário de mim, adora política e até hoje trabalha pra CUT. Se formou em Administração de Empresa pela FGV, trabalhando na compensação para pagar a faculdade de ricos, e foi trabalhar para os empregados, os bancários, e não para os banqueiros. Foi presidente do sindicato por vários anos, sempre trabalhando com Gushiken. 
     Quando eu estava no Japão, por volta de 1992, trabalhei um tempo na Embaixada do Brasil em Tóquio. Ia passar os fins de semana em Nagoya, com minha mulher, que trabalhava em Tokai, cidade da grande Nagoya. Ia e voltava de trem bala, para percorrer os 400 km entre as duas cidades em duas horas, e nunca paguei tão caro para dormir com uma mulher. Aliás, nunca tinha pagado mesmo.
     Um dia Gilmar me ligou e avisou que Gushiken estava em Nagoya e ia para Tóquio, se eu podia fazer companhia a ele. Ele não falava nadinha de japonês. Tinha um sobrenome típico da região de Okinawa, que é bem peculiar. Foi uma viagem agradável. Gushi, como chamávamos, estava bem interessado na filosofia oriental, e como tem muita gente que liga misticismo com Mecânica Quântica, se aproveitou dos meus conhecimentos de Física para lhe dar uma ideia introdutória. Bem, duas horas era o tempo de uma aula, e geralmente me toma mais que isso para dar uma introdução de Mecânica Quântica para os alunos de engenharia. Eu não podia recorrer a fórmulas, e foi um desafio legal explicar a um leigo. Ao fim, ele disse que tinha entendido. Falei a ele que essa era a prova de que ele não tinha entendido, pois Mecânica Quântica não se entende. Quer dizer, você pode entender que a teoria funciona, mas não existe um modelo por trás do formalismo. É uma caixa preta que você sabe quais botões apertar para obter determinados resultados, mas não sabe o que tem dentro da caixa.
     Ele tinha largado a política na época. Estava desiludido. Dizia que era muita sujeira. Eu insisti com ele para que voltasse. Se a gente deixasse a política sempre com os sujos, nunca haveria uma solução. Precisávamos de pessoas honestas e bem intencionadas para resolver o problema. Felizmente ele voltou. Aí sofreu aquele linchamento que a mídia não tem piedade de impor, sem se preocupar se as acusações têm fundamento ou não. Diziam que ele desviava dinheiro para a família. Nunca acreditei. Meu irmão também se candidatou a deputado, e saíram dizendo que ele desviava dinheiro do sindicato. Queriam que vasculhassem as contas de todos os irmãos (a minha, por exemplo). Enquanto isso Gilmar passava a sanduíche, trabalhando feito um burro de carga. Depois se comprovou que Gushiken era inocente, mas a mídia não sai por aí se preocupando em limpar um nome que ela ajudou a sujar. 
     Levei Gushi até a embaixada. Era tempo de eleição no Brasil, mas o embaixador me disse que eu não poderia votar porque meu título de eleitor era do antigo. Aquelas coisas bem típicas do Brasil, que mudam as regras do jogo a toda hora e não informam ninguém. E olhem que os funcionários da embaixada são extremamente competentes e desvelados, trabalhando de graça até tarde da noite, para resolver os problemas dos brasileiros que estão no Japão. O problema é que não vem nenhuma informação do Brasil, de nenhuma parte. Os sulistas não têm nenhum motivo para dizer que trabalham mais do que os nordestinos. 
     Saí da embaixada e vim pro Brasil, trabalhando um ano e meio em Maceió. Assim que cheguei aqui, Gushiken providenciou logo um novo título de eleitor para mim, procurando me ajudar no que pode na transição. Agora que ele se foi, gostaria de ajudar a limpar a imagem negativa que divulgaram dele, e levar ao conhecimento de todos, com este depoimento, como era bonita a sua alma idealista.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A OSBA toca Rachmaninoff e Brahms


    Muito boa a apresentação da OSBA nesta quinta feira, sob a regência do maestro da Sinfônica de Roma, Francesco la Vecchia. A princípio o programa parecia óbvio demais: Vocalise, Variações sobre um tema de Paganini, ambas de Rachmaninoff, e, depois do intervalo, a 3a. sinfonia de Brahms.
   Acontece que das Variações sobre um tema de Paganini, a que é mais divulgada é a 18, conhecida como "História de 3 amores" (nome de filme?), onde o tema aparece com as notas invertidas verticalmente. Nunca tinha ouvido todas as 24 variações juntas.
   A terceira sinfonia de Brahms  é famosa por causa do 3o. movimento, o poco allegretto, e, por causa dele, conheço a peça toda. Mas muita gente não deve ter a oportunidade de ouvir a sinfonia inteira. Que saiu muito brilhante. E olhem que só tinha 9 primeiros violinos e 7 segundos, pra cobrir todos os sopros portentosos!
   Seria bom que, da mesma forma que mandam desligar os celulares, educassem a plateia instruindo a aplaudir somente no final da sinfonia. Com o sistema de educação brasileiro a gente não pode nem culpar quem bate palmas depois de cada movimento.